O que os ataques à Liberdade de Expressão tem a ver contigo, caro internauta?

Os amigos leitores devem ter visto neste e em outros blogs, sites, redes sociais, etc,  várias pessoas defendendo a Liberdade de Expressão e criticando a censura que governos das mas distintas matizes, assim como grande corporações privadas, tentam impor à Internet, limitando seu livre uso e  o livre  acesso à ela, incluindo aí a Liberdade de ver, ler, trafegar dados e publicar o que cada um considerar de seu interesse, além de opinar sobre todo e qualquer assunto que o internauta domine ou que o afete direta ou indiretamente.

Aqui alguns exemplos de artigos que debatem o tema:

EUA atacam Liberdade de Expressão
Internet sofre mais um ataque da censura. Agora é na Belarus do ditador Lukashenko
Pela liberdade de expressão dos blogueiros!
Blogosfera e liberdade de opinião sob ataque no Paraná
Paraná rumo à Idade Média: Mais um blogueiro perseguido!
Manifesto em defesa da Liberdade de Expressão

Notamos, porém, que muitas vezes o número de artigos e autores que falam sobre Liberdade de Expressão e Censura na Internet é muito superior ao número de leitores ou de acessos aos posts. É como se os leitores das novas mídias não estivessem nem um pouco preocupados com a Censura que está sendo implantada na Rede Mundial de Computadores, como se ela – Censura – atingisse somente quem escreve, mas não quem lê, num divórcio absurdo entre produção e consumo de notícias.

Pois, nos espanta este silêncio por parte da maioria dos internautas, usuários da rede,  uma vez que são exatamente estes  os maiores prejudicados com todo e qualquer tipo de Censura, serão as maiores vítimas dos ataques à Liberdade de Expressão por parte dos generais da ditadura cibernética.

Talvez alguns destes internautas pensem que a ditadura cibernética será apenas virtual e poderá ser muito tarde quando perceberem que ela já está no dia-a-dia, na chamada vida real, limitando todos os seus direitos de cidadão e consumidor.

Abaixo reproduzimos o artigo do blog Tudo em Cima que em 2007 nos chamava a atenção para os perigos da modernidade neoliberal comentando a película “Brazil, The Film”, de 1985, que retrata um mundo modernoso ao mesmo tempo cavernoso, onde o Estado existe apenas com um orgão de repressão aos pobres e a todos que pensem de forma diferente ao pensamento único dominante. Neste filme, Robert de Niro é um engenheiro de calefação que atua como um verdadeiro hacker a invadir a imensa rede de cabos e tubos e a subverter os códigos do Total Control , através do qual o sistema em vigor mantém as pessoas alienadas e conformadas com sua situação.

A tragi-comica história contada em “Brazil, The Film” parece estar deixando de ser fictícia para se tornar real. Do AI-5 digital aqui no Brasil ao SOPA nos EUA,  dos “filtros” de rede na China ao desligamento dos cabos da Internet no Egito, não faltam corporações privadas, governos e máfias dispostos a isso.

DVD: “BRAZIL, O FILME”

Versão restaurada de “Brazil”, do anarquista Terry Gilliam, possui 20 minutos de cenas extras

Filme é uma alegoria ácida sobre a perda da humanidade numa sociedade totalitária e consumista, que mistura “1984” e “O Processo” com toques do humor do Monty Python. Também é premonitório do futuro catastrófico caso a doutrina neoliberal fosse levada às últimas conseqüências.

- Por André Lux, jornalista e crítico-spam

Lá pelo final de 1985, os executivos da Universal Pictures, preocupados com o possível fracasso de um filme que produziram e estavam para distribuir nos EUA, marcaram uma reunião urgente com o seu realizador durante a qual pediram pouca coisa: que ele reduzisse a metragem, trocasse a trilha sonora orquestral por outra com canções pop e, especialmente, mudasse a conclusão amarga para um típico happy end hollywoodiano, do tipo “o amor vence tudo”. Essas mudanças iriam, na opinião deles, tornar o filme muito mais comercial, garantindo seu sucesso. O cineasta explicou então, na sua característica maneira pouco ponderada, que o filme deveria ficar do jeito que havia sido idealizado, caso contrário ele iria botar fogo nos negativos!

A cena narrada acima pode parecer o delírio de algum comediante, mas ela aconteceu de verdade – infelizmente. O filme em questão chama-se “Brazil”, e o diretor, Terry Gilliam. Insatisfeitos com o resultado final do terceiro longa-metragem do ex-integrante do grupo Monty Python, o qual consideraram pesado e amargo demais para os padrões aceitos pelo público dos EUA, os executivos da Universal decidiram que “Brazil” deveria ser reeditado e transformado em um filme mais “aventuresco” e “leve”. Dos originais 142 minutos de projeção, que foram lançados pela Fox sem problemas na Europa e em outras partes do mundo (como o Brasil), Gilliam concordou em reduzir o filme em cerca de 20 minutos. Mas não foi o suficiente.

A Universal era liderada na época pelo infame Sid Sheinberg que, entre outros absurdos, foi o responsável direto pela destruição de “A Lenda”, de Ridley Scott (que deixou o estúdio retalhar e mudar a trilha musical de seu filme) e pela aprovação do lamentável “Howard, O Pato”, de George Lucas. Sheinberg, a exemplo do que acontece ao protagonista do próprio filme de Gilliam, tornou-se o “torturador particular” do cineasta, cercando-o de todas as formas possíveis (inclusive legais) para poder retirar o projeto das mãos dele a fim de torná-lo “mais comercial”.

Versões e (in)Versões
Essa feroz batalha entre o artista e os engravatados da Universal (em mais uma reedição do clássico embate entre David e Golias) é uma das mais famosas e ilustrativas acerca de como funciona o sistema de produção em série da indústria cultural estadunidense. E ela está descrita, com riqueza de detalhes, ilustrações e depoimentos de todos os envolvidos, no excelente livro “The Battle of Brazil”, de Jack Mathews, jornalista de Los Angeles que cobria a produção do filme na época. Mathews transformou seu livro em um documentário de uma hora de duração, que pode ser assistido no box de “Brazil”, lançado pela The Criterion Collection na região 1, que traz nada menos do que três discos.

No primeiro disco, temos a versão de Terry Gilliam para o filme, com seus gloriosos 142 minutos de projeção, remasterizado digitalmente no formato widescreen 1.85:1, trazendo ainda uma faixa de áudio com comentários do diretor. No segundo, chamado de “The Production Notebook”, encontramos vários making of, entrevistas com os roteiristas Tom Stoppard e Charles McKeown, com o compositor Michael Kamen (que utiliza na trilha de forma magistral trechos de “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso), storyboards, cenas raras da produção dos efeitos especiais, além é claro do excepcional documentário “The Battle of Brazil”.

O material mais curioso, todavia, está contido no terceiro disco: nada mais do que a infame versão “Love Conquers All” (‘O Amor Vence Tudo) de “Brazil”, montada à revelia do diretor, trazendo meros 94 minutos de projeção e um ridículo happy end, que simplesmente detonam a obra em questão deixando-a totalmente sem sentido. Pior que essa grotesca (in)versão foi exibida nas televisões dos EUA, por anos a fio. Existe ainda um canal de áudio onde David Morgan, expert em Terry Gilliam, faz uma análise extremamente crítica de todas as alterações feitas.

Orwell encontra Kafka no circo do Monty Python
Quanto ao filme, trata-se de uma alegoria extremamente ácida e anárquica sobre a perda da humanidade frente a uma sociedade totalitária e cada vez mais repleta de burocracia e obcecada pelo consumismo. Trata-se de uma mistura de “1984”, de George Orwell, com ”O Processo”, de Kafka, com toques do humor bizarro e non-sense próprios do sexteto inglês do qual Gilliam fazia parte, o Monty Python.

Além disso, o filme é premonitório do futuro catastrófico imposto ao mundo caso a doutrina neoliberal, que na época ainda estava em processo de implantação, fosse levada às últimas conseqüências. Reparem como o Estado retratado no filme é o sonho de qualquer defensor do neoliberalismo: enxuto, isento de qualquer responsabilidade social e praticamente restrito ao aparato policial de vigilância e repressão constante às classes mais baixas, mantido graças a um clima de medo e paranóia constante propagado pela mídia e por supostos ataques de “terroristas”.

O protagonista dessa epopéia, interpretado brilhantemente por Jonathan Price, é Sam Lowry, um funcionário público apático e conformista, que passa acidentalmente a lutar contra o sistema depois que descobre que a mulher de seus sonhos existe e está marcada para morrer. É a típica trama do anti-herói forçado a agir, mesmo contra sua vontade, para conquistar seus desejos. Na sua aventura, ele conta ainda com a ajuda do engenheiro-de-calefação-autônomo e dublê-de-terrorista, Harry Tuttle (na pele de um Robert De Niro praticamente irreconhecível).

Só que catarse e redenção são palavras que não fazem parte do dicionário de Terry Gilliam, como Lowry vai descobrir dolorosamente no final. E a melhor explicação para essa filosofia de vida vem do próprio diretor: “Nós não damos respostas, apenas apontamos para o óbvio que ninguém quer ver, de um modo engraçado. E quando as pessoas pegam-se rindo daquilo, esperamos que elas pensem: ‘Ei, eu não deveria estar rindo, isso é horrível!'”.

Sobre o motivo do filme se chamar “Brazil”, Gilliam explica: “Port Talbot é uma cidade de ferro, onde tudo é coberto por um pó cinza de metal. Até a praia é completamente coberta de pó preto. O sol estava se pondo e era realmente bonito. O contraste era extraordinário. Eu tinha essa imagem de um cara sentado nessa praia moribunda com um rádio portátil, sintonizando estranhas canções escapistas latinas como [Aquarela do] Brasil. A música o transportou de alguma forma e fez o seu mundo menos cinza”.

Quanto ao desfecho da “Batalha por Brazil”, o vencedor foi, em última instância, o nosso “David” da sétima arte, que passou a usar táticas de guerrilha para promover o lançamento de seu filme intacto, tais como patrocinar exibições piratas para estudantes e críticos de cinema, bem como tornar público o martírio pelo qual estava sendo obrigado a passar pela Universal – Gilliam chegou a pagar um anúncio de página inteira no jornal Variety com a seguinte mensagem: “Querido Sid Sheinberg. Quando você vai lançar meu filme ‘Brazil’?”. Em um outro momento, Gilliam mostrou uma foto do executivo em um programa de entrevistas do qual participava, e soltou no ar, ao vivo: “Esse é o homem responsável pela minha dor”.

Mas tamanha audácia provou-se válida, tanto que o filme ganhou os principais prêmios da Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles (melhor Filme, Diretor e Roteiro) e acabou sendo lançado intacto (mas modestamente) nos cinemas dos EUA, dividindo público e crítica, fato que não incomodou em nada o cineasta. “Para algumas pessoas, meu filme foi o equivalente a um espancamento”, diz Gilliam rindo. “Para outras, foi uma experiência maravilhosa. Perfeito. Eu não fiz o filme pensando em agradar alguém…”. É certo que, depois desse evento notório e constrangedor, as políticas dos grandes estúdios, relativas a quem seria responsável pelo corte final dos filmes, nunca mais foram as mesmas.

Infelizmente, essa caixa com os três discos dificilmente será lançada no Brasil. Portanto, você precisará ter um bom dinheiro sobrando para colocar suas mãos nela. Mas, se tiver, certamente não vai se arrepender!

Por aqui, o filme foi lançada pela Fox (que detém os direitos de distribuição fora dos EUA) na versão normal sem cortes, mas desprovida de qualquer extra ou comentário (veja reprodução da capa à direita).

One Comment to “O que os ataques à Liberdade de Expressão tem a ver contigo, caro internauta?”

  1. Infelizmente, apesar de nosso poder econômico (temos uma moeda forte e somos consumistas), raramente os filmes da Criterion Collection são lançados no Brasil. Poderia haver um licenciamento com alguma distribuidora nacional para que isso acontecesse, com legendas em português. Muito informativo o texto, agora tive uma resposta à pergunta de por que o filme se chama “Brazil” e o que isso tem a ver com nosso país.

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