Lula da Silva e os portugueses

Por Márcio Carlomagno, nosso Correspondente em Portugal

Lula da Silva é como chamam aqui em Portugal o ex-presidente do Brasil, Lula. Estranha-se, pois no Brasil todos os órgãos, imprensa, autoridades em seus discursos, e por aí afora, enunciam somente o “presidente Lula”. O formalismo do sobrenome Silva seguido àquilo que não é propriamente seu primeiro nome (Luiz Inácio é seu nome próprio de batismo) confere à figura um ar adicional de respeito e imponência, que não existe no Brasil, onde se associa sua figura mais ao carisma e descontração.

Esta semana o ex-presidente (estranho chamá-lo assim, não?) Lula da Silva esteve em Portugal, junto com a atual presidenta Dilma Rousseff. Os jornais, d’um país e d’outro, noticiaram os fatos oficiais, o encontro com o presidente de Portugal, Cavaco Silva, as declarações do brasileiro sobre a entrada do FMI em Portugal, o doutoramento honoris causa de Lula na Universidade de Coimbra, uma das mais antigas do mundo…  Mas há mais, além dos fatos. Há o sentimento social.

O sentimento social dos portugueses em relação ao Brasil e ao presidente Lula da Silva é algo impressionante. Na Universidade, quando se fala a respeito, o que se ouve é coisas como “o que Lula da Silva fez no Brasil merecia ser estudado, por que em dez anos dar uma reviravolta econômica como a que ocorreu não é coisa corriqueira. E todos os brasileiros devem isso a esse homem”. Palavras de um português, universitário, ipsis litteris, sem distorções.

O Brasil sempre foi conhecido no exterior por seus famosos estereótipos: futebol, carnaval, música, mulheres…  Algo está mudando. Os estereótipos ainda existem, claro, não se rompe com isso da noite para o dia. Mas é algo emocionante ver que o Brasil está sendo visto como algo a mais. Não foi uma, nem duas pessoas com quem este narrador conversava e seu interlocutor lhe indagou sobre o senhor Lula da Silva. Não fui eu quem puxou o assunto, pois se o fosse seria indução, mas meu interlocutor, sabendo que sou brasileiro, que puxou a conversa não para o futebol ou o jogador X ou Y, mas sobre Lula e o “partido trabalhista” (aqui se associa o PT aos trabalhistas).

Há mais, a própria presidenta Dilma também é conhecida por essas bandas. “Admiro sua história, o que eu li das coisas que ela sofreu. E subiu devido a sua capacidade. Todos os partidos deveriam ser assim, pela capacidade, não como ocorre aqui, por conhecer ou ser familiar de um ou de outro”, palavras de uma portuguesa, universitária.

Falo sobre o Brasil e Lula, mas procuro ouvir mais do que falar. Ouvir e me deliciar. É bonito ver as reações, comentários e percepções portuguesas a respeito de Lula.

Em dois meses, este narrador ouviu apenas uma vez falar mal, não só de Lula, mas do próprio Brasil. Uma brasileira, paulista (surpresa!), que gosta de “mostrar para os portugueses que o Brasil não é isso tudo não, que eles têm uma idéia muito errada do que é mesmo”. Não comentarei a falta de lógica em cruzar o oceano para falar mal de seu país – o oposto do que fez Lula em oito anos, “vendendo” a imagem do Brasil.

Chega a ser irônico que estrangeiros do outro lado do mar tenham uma percepção do Brasil melhor do que uma determinada classe brasileira. Ou, pensando bem, talvez faça sentido. Afinal, aqui, eles não têm o veneno de Veja e congêneres.

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