Projeto tenta recuperar jornalismo local reincorporando profissionais desempregados

Artigo sugerido por Nelba Nycz

Por Carlos Castilho

Um grupo de oito veteranos jornalistas, apoiados por quase 200 colegas demitidos das redações de jornais e revistas da cidade de San Francisco (EUA) desde 1980 lançam até o fim do ano um inédito projeto de recuperação do interesse público pela imprensa local e comunitária.

A ideia surgiu da cabeça de David Weir, criador do respeitado Center for Investigative Reporting (Centro de Jornalismo Investigativo) e vai comparar o jornalismo local e comunitário praticado pela imprensa da chamada Bay Area (região que inclui as cidades de San Francisco, Oakland e San José), nos anos 1970 e 80, com o que é feito hoje nessa região onde vivem oito milhões de pessoas.

Os resultados da pesquisa servirão para mostrar com números e estatísticas o que já é percebido na prática pela população e, principalmente, pelos jornalistas: a brutal redução na cobertura dos assuntos locais nas principais cidades. No caso da Bay Area, houve uma redução estimada em quase 80% na produção de notícias sobre as cidades da região, provocada por um encolhimento médio de 150% nas redações de jornais e revistas área.

O jornal San Francisco Chronicle, um dos cinco líderes de vendagem na Bay Area, tinha em 1975 uma redação de 575 repórteres, editores, diagramadores, fotógrafos e revisores. Hoje o jornal é feito por menos de 180 profissionais e sua seção local não é mais publicada diariamente. Fenômeno idêntico aconteceu com o San José Mercury e com o Oakland Tribune.

O que o projeto pretende é mostrar ao público como isso aconteceu ao longo dos últimos 40 anos, para tentar identificar o tipo de notícia que as pessoas recebiam sobre as cidades e os bairros onde moram e qual o tratamento que recebem hoje da imprensa convencional. A maioria dos leitores de jornais que chegam hoje à idade adulta nunca tiveram contato com um jornalismo local e comunitário como o praticado antes da crise do modelo de negócios da imprensa.

O projeto de David Weir visa também promover a reincorporação de jornalistas experientes e que foram dispensados na sequência de cortes orçamentarios promovidos pela esmagadora maioria de jornais no mundo inteiro. A proposta é iniciar com oito linhas distintas de investigação, mostrando o passado e o presente na perspectiva da oferta de notícias ao público.

A recuperação da importância do noticiário local e comunitário é hoje a principal tendência em debate na imprensa mundial porque é considerada a que pode oferecer alternativas mais concretas e imediatas para a queda de circulação nos jornais e revistas impressas.

Hoje quase todo o espaço que era ocupado pelos jornais e emissoras de rádio e TV na cobertura local foi tomado por blogs e páginas web independentes. Os veículos eletrônicos têm, obviamente, mais versatilidade e diversificação na produção de informações comunitárias e hiperlocais. Eles são imbativeis na atualidade, no monitoramento de ações governamentais, na produção coletiva de notícias e na interatividade entre produtores e consumidores de informações.

A grande lacuna está no jornalismo investigativo local — que requer mais constância, experiência profissional e recursos financeiros. E é ai que a mídia impressa não tem concorrentes e pode encontrar um novo espaço no ambiente informativo da era digital. Weir disse numa entrevista ao site San Francisco Weekly que há duas décadas a presença de reportagens investigativas sobre a prefeitura, empresas públicas e privadas da cidade era quase diário. Com isso a população tinha elementos para interferir de forma muito mais intensa e frequente nas decisões municipais. Hoje esta participação caiu a níveis sem precedentes por conta da desinformação, entre outros fatores.

O caso da imprensa local em San Francisco não é exclusivo da cidade e nem dos Estados Unidos. Na Europa, dados estimativos recolhidos pelo European Journalism Center (Centro Europeu de Jornalismo) mostram que com exceção dos países do antigo bloco socialista, todos os demais registraram uma redução de pelo menos 40% na cobertura local pela imprensa convencional.

No Brasil , o noticiário local é dominado pela combinação sexo, drogas, violência e corrupção, responsável pela circulação dos chamados jornais populares. Reportagens investigativas sobre temas municipais são raras e quando acontecem geralmente são produzidas por emissoras de televisão. A cobertura local promovida por blogs independentes é fortemente influenciada pelo denuncismo e pelas retaliações por interesses politico-partidários.

Mas também aqui a população está carente de informações sobre o seu entorno imediato. Há portanto espaço e demanda por notícias locais porque, mais do que nunca, a população depende de serviços fornecidos pelo poder público, como saúde e segurança. E para que a cidadania promova a cobrança desses serviços e a utilização correta dos recursos governamentais, ela precisa de informações que os jornais atuais não oferecem. Aí está o novo nicho para a imprensa local e comunitária.

Fonte: Observatório da Imprensa

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