A gente quer comida, diversão, balé e, sim, podemos!

Em 07 de junho de 2004, em sua coluna de Opinião, o jornal “A Notícia,” de Joinville,  publicava o seguinte artigo:

A gente quer comida, diversão, balé
Sérgio Luís Bertoni*

Um dos pilares do pensamento único é tentativa de desacreditar a capacidade das pessoas de manifestarem vontade própria, de eleger livremente seu futuro. O artigo de Antonio A. D. Raitani (A Notícia, 22/5/2004, p. A3) é uma demonstração desse tipo de preconceito.

O escriba constrói para si a idéia do saber onisciente que o torna capaz de determinar o que é bom e o que é ruim. Afinal, ele sabe “o que realmente é necessário e o que é supérfluo para uma boa qualidade de vida”. Cita os precários e insuficientes serviços de saúde, as mal conservadas escolas, os aglomerados urbanos sem infra-estrutura, a insegurança, como resultado da ignorância de governados e governantes, com o que até poderíamos concordar não fosse a superficialidade da argumentação que tenta colocar no mesmo lamaçal iniciativas que buscam tirar nosso povo do subdesenvolvimento cultural. Concretamente cita obras que “estão consumindo milhões de reais e que não atingem diretamente os mais necessitados. O famoso Teatro Bolshoi brasileiro, onde funciona a escola de balé, é a maior inutilidade jamais concebida” e, demonstrando forte preconceito, esculhamba com o povo que teima em alimentar sonhos: “Crianças pobres não precisam aprender balé para garantir seu futuro, porque não há a mínima chance de ser um meio de vida” Como ser “esclarecido” que é, crê que a arte é para os bem-nascidos e não para os pobres.

Como um nobre medieval, o escriba se assusta com a possibilidade de os plebeus virem a ocupar os palcos de nossos teatros. Para ele não cabe ao povo o direito de evoluir, aprimorar o gosto, aprender, conquistar novos horizontes, construir uma vida mais digna e feliz, porque “o Brasil não tem tradição de balé e muito menos o público de baixa renda que mais sofre está disposto a pagar para assistir a espetáculos desse tipo, pois a sua predileção é por shows de músicas populares, preferencialmente gratuitos”.

O Brasil precisa, sim, aprender a dançar o balé, assim como uma criança aprende gradualmente a “segurar” a cabeça, sentar, engatinhar, dar os primeiros passos, andar e correr. A iniciativa do Bolshoi no Brasil é exatamente este “segurar a cabeça” para que um dia cheguemos à nossa brasileira escola de balé, fruto de toda a riqueza e magia cultural existente em nosso País, síntese do mundo e fonte da nova civilização mundial.

O futebol foi inventado pelo ingleses, mas fomos nós que demos graça ao jogo e nos tornamos os únicos pentacampeões mundiais. Com o balé será o mesmo, pois quem está nas salas de aula da Escola do Bolshoi são crianças brasileiras que darão o sentido nacional à dança que ali aprendem. Desconsiderar isso é ofender a capacidade brasileira de aprendizado e de criação soberana. É desconsiderar que dali sairão cidadãos brasileiros mais preparados cultural e profissionalmente. Talvez, por desconsiderarem isso e pelo fato de a Escola do Bolshoi no Brasil já ser um patrimônio do povo brasileiro, é que muitos acabam tentados a colocá-la no centro de disputas eleitoreiras, apostando assim no atraso e na manutenção do colonialismo.

O fato de a escola de Joinville estar trazendo ao Brasil a experiência russa incomoda a muitos, porque os russos estão efetivamente transferindo “tecnologia” (entendida aqui como conhecimento do que fazer, como fazer, com quais métodos e instrumentos) para nosso País, facilitando que um mercado venha a ser criado por brasileiros que saibam dançar balé.

Mas isso não é importante para os que desejam manter a pobreza como justificativa de sua própria existência. “Se o espaço destinado ao decantado Teatro Bolshoi fosse ocupado por uma escola técnica que pudesse proporcionar formação profissional, o dinheiro estaria mais bem aplicado.” Ao afirmar isso o escriba se esquece que foi exatamente a opção dos governos militares pelo ensino “técnico” e “especializado” que levou a educação em nosso País ao estado que se encontra. Na qualidade de dono do saber, ele dispõe que “os governos têm de procurar atender às prioridades que possam melhorar a qualidade de vida do cidadão e depois investir em projetos de ‘lazer'”, como se lazer não fosse um importante componente da qualidade de vida. Não percebe que lazer não é simplesmente um passatempo de desocupados, mas uma das mais poderosas ferramentas de geração de emprego, renda e, em conseqüência, tributos que vão redundar em mais saúde, educação, segurança; ele não quer enxergar que cultura é, sim, gênero de primeira necessidade e precioso instrumento de inclusão social. Desconhece que investir em cultura é uma obrigação do Estado e um direito do cidadão, pois nem só de comida é que se tem fome, como alertam os versos de A. Antunes, M. Fromer e S. Britto: “A gente não quer só comida/A gente quer bebida, diversão, balé”

Finalmente, ele também não quer ver que a futura sede da Escola do Bolshoi no Brasil gerará investimentos e trará milhões de dólares de empresas e instituições sérias, competentes, nacionais e internacionais. Dinheiro que irá movimentar a economia local, empregar centenas de trabalhadores, gerar renda, tributos, melhorar a vida de quem trabalha e alimentar os sonhos de quem tem esperança, a mesma esperança que vence o medo. Isso tudo sem falar nos benefícios culturais, educacionais e sociais dessa obra imensurável para o país inteiro.

* Sérgio Luís Bertoni, mestre em filosofia pela Universidade Estatal de Moscou “M .V. Lomonossov”

Volto ao tema 7 anos depois, porque foi com muito orgulho que pude constatar na última sexta-feira, 04 de novembro de 2011, a qualidade dos bailarinos da Companhia Jovem da Escola Bolshoi, formados pela Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, que agraciaram o público de Curitiba com a montagem do balé Giselle, uma das principais peças de repertório das companhias clássicas de todo o mundo.

O balé Giselle estreou em 1841 e sintetiza de forma admirável todas as aspirações técnicas e dramáticas do período romântico. A remontagem apresentada em Curitiba pela Companhia Jovem da Escola Bolshoi é coreografada pelo grande bailarino russo Vladimir Vassiliev que passou aos alunos da Escola Bolshoi  detalhes técnicos que acentuaram o romantismo e o lado humano da obra.

Foram 3 horas de espetáculo, dividido em 2 atos, onde nossos jovens na faixa etária de 15 a 20 anos, todos formados pela Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, puderam mostrar um balé de alto nível, com bons fundamentos e técnicas aprimoradas, próprias da escola russa, misturados à paixão pelo que se faz com pitadas da malícia e desenvoltura próprias da cultura brasileira num delicioso sincretismo cultural, inemaginável há 11 anos, quando o Bolshoi apenas chegava a Joinville.

Nossos jovens provaram que aprenderam a “segurar” a cabeça, sentar, engatinhar, dar os primeiros passos, andar e já estão a correr. O profissionalismo apresentado em Giselle, mostra que “Sim! Nós Podemos Dançar Balé”, “Sim! Nossas crianças pobres podem aprender a fina arte”. Tanto é verdade que, além da bela montagem de Giselle, 3 brasileiros formados em Joinville, Mariana Gomes, Bruna Gaglianonne e Eric Swolkin, foram contratados pelo Teatro Bolshoi de Moscou e hoje atuam no grande palco de um dos mais tradicionais Teatros Clássicos do mundo com 235 anos de história.  Já os jovens Ariate Costa e Bruno Miranda, que estudaram 8 anos na Escola do Bolshoi em Joinville, integram a Cia. Débora Colker e já atuam no Rio de Janeiro.

Já a menina Amanda Gomes, de Goiás, com apenas 16 anos interpreta Giselle como uma verdadeira prima ballerina deve fazer. Ela vai longe, pois incorpora apaixonadamente a personagem que interpreta e dança suavemente em completa sintonia com a música, que parece correr pelo seu corpo.

A apresentação de Curitiba mostrou também que “Sim! Há público no Brasil disposto e capacitado a prestigiar espetáculos de balé”. Mais de 1000 pessoas lotaram o teatro para ver Giselle na última sexta-feira.

É realmente muito bom ver que, em apenas 11 anos, a criatividade brasileira unida ao rigor técnico dos russos tenha gerado resultados extraordinários do ponto de vista social e cultural. É muito bom ver preconceitos e discriminações sendo jogadas na lata do lixo da história, condenando seus propagadores ao limbo.

Encerro estas linhas com a primeira estrofe de um poema de Gonzaguinha:

Eu acredito é na rapaziada
Que segue em frente e segura o rojão
Eu ponho fé é na fé da moçada
Que não foge da fera e enfrenta o leão
Eu vou à luta com essa juventude
Que não corre da raia a troco de nada
Eu vou no bloco dessa mocidade
Que não tá na saudade e constrói
A manhã desejada

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