Quem está na roda?

Por Denise Queiróz, do Tecedora

 
Brincadeira de roda

Roda de capoeira, roda de chimarrão, roda de samba, roda de ciranda, roda de caipiririnha, lual, dança na tribo e em alguns passos o círculo se forma. Nos jardins de infância, sentadas no chão em rodas, as crianças aprendem brincando. Algumas escolas usam as carteiras em forma de círculo para ensinar, com o professor no papel de interventor e mediador dos temas debatidos. Nas ruas, quando se vê muita gente reunida, a forma geométrica é uma roda. Aliás essa é uma das cenas mais comuns em nossas cidades. E todos sabem que quando há um círculo de pessoas, normalmente dois ou três estão trabalhando e vários outros em volta palpitando. E não raro desses palpites surgem as soluções.

Rodas são cuidadosamente planejadas por especialistas de alto nível para rodarem movidas por um motor e seus dentes engancharem tão perfeitamente uns nos outros que o produto sai prontinho, são as engrenagens.

Mas há outras rodas. Há os círculos fechados que ao contrário das rodas de ciranda, de dança ou trabalho, não se abrem às novidades. Quem está neles está, quem não está, de fora fica.

O governo brasileiro tem me parecido um destes. Uma máquina que está com engrenagens gastas, muito por culpa de óleo de péssima qualidade que foi usado até bem pouco tempo, mas a roda principal, aquela por onde a polia move todo o resto, está com problemas. E com isso as outras estão rodando em falso. Algumas estão até paradas e o produto final está sendo comprometido.

 A economia, com toda a crise internacional, está sofrendo muito pouco, é verdade. Ainda. Os programas sociais estão sendo tocados, o projeto que vem sendo desenvolvido desde 2003 está andando, a miséria diminuiu, os índices de analfabetismo baixaram, o desemprego é mínimo.  Enfim temos muitas razões para estar felizes. Por que não estamos, então?

Porque ao mesmo tempo em que as planilhas nos mostram uma realidade boa, estamos vendo algumas áreas fundamentais sendo deixadas ou – espero que seja distração e não projeto – postas propositadamente em segundo plano. A cultura é uma delas.

Por outro lado, várias pessoas que atuam e têm história de luta em áreas fundamentais em que o nosso país é rico, porém miserável em termos de suporte oficial para seu desenvolvimento e difusão,  reportam dificuldade em conversar com os representantes do governo, apresentar projetos que beneficiariam grupos marginalizados historicamente, aos quais devemos incluir como forma de beneficiar a todos.

Então talvez a resposta ao por que não estejamos mais felizes seja essa: criamos muitas expectativas, elegemos uma pessoa que durante anos esteve no comando da casa civil –  que portanto conhece todas as engrenagens do governo – e representa um partido que nasceu de bases sociais onde a democracia, a roda, era uma prática cotidiana. Assim, o que esperávamos era que a roda fosse aberta, que todos tivessem a sua vez de jogar. E o que temos é uma roda fechada, quase uma caixa preta.

A comunicação é falha, os projetos apresentados já vêm prontos e passaram pelo crivo de umas poucas mãos. O debate, o palpite que até na semeadura de um canteiro de horta é sempre bem vindo, está sendo negado.  Além de comprometer o produto final – o objetivo, quero crer é uma sociedade mais igualitária, pois não? – está sendo implementado um sistema que contraria tanto a cultura histórica do partido da nossa presidenta, quanto, e pior, a rica cultura brasileira.

Seria bom voltar a brincar de roda e na brincadeira ir inventando as regras e talvez assim a roda não se feche.

Samba de roda

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