A agitação social na Rússia e os desafios da Esquerda Democrática

Extraído de TIE-Brasil

O QUE FAZER?
Subsídio à discussão sobre a pauta da esquerda russa neste momento de agitação social

Por Kirill Buketoff

Nos últimos meses, todos os grupos políticos da esquerda russa se esforçam para encontrar o seu lugar na conjuntura política atual, ao mesmo tempo que notam que o regime vigente se tornou obsoleto. Tentar se encontrar nele é um esforço em vão, pois em termos de curto prazo, a esquerda não possui nenhuma chance de vencer. Qualquer que seja o resultado da votação de 4 de março de 2012, a esquerda leva desvantagem. Este dia pode se tornar uma comemoração da oligarquia autoritária, dos nacionalistas desvairados, dos liberais extremistas, dos esquerdistas totalitaristas ortodoxos. O único grupo que antecipadamente está em desvantagem e, portanto, é obrigado a procurar o melhor caminho, é o grupo de Esquerda Democrática que não possui nem unidade organizacional, nem um programa único e nem líderes populares. Ao invés desta procura sem perspectiva e sem sentido, precisaríamos iniciar a construção de um novo sistema, no qual teríamos o nosso lugar.

Esta construção deve levar em consideração a nova realidade onde os partidos políticos perderam seu papel tradicional. A própria agitação social que estamos vivendo não está ligada de forma alguma à atividade partidária. Tanto os grupos parlamentares como não parlamentares assim como os seus líderes ficaram à margem deste grande movimento social, demonstrando que a influência de todos os grupos políticos sobre as massas populares é totalmente limitada. Portanto, tentar agir dentro desta lógica política significa condenar a si mesmos a ficar à beira da estrada da vida política nacional.

A agitação política que estamos vivendo não foi preparada pelos partidos políticos. Foi resultado de uma série de iniciativas civis surpreendentes, diferentes entre si pelo seu caráter, porém ligadas, como pode ser observado agora, por um sustentáculo – cada uma delas expressa uma determinada demanda social. Apenas alguns anos atrás o país estava numa depressão. Abolição dos últimos elementos das políticas públicas, da liberdade de expressão; assassinatos de jornalistas e advogados famosos; prisão de líderes sindicais e de defensores de direitos humanos; bandidos desvairados, fascistas, acobertados pela polícia; tudo isso criou um clima de tristeza profunda e medo de um novo super Estado monolítico que estava para vir. Surgiu uma sensação de que somente os mais corajosos, porém condenados e solitários, poderiam desafiá-lo. À esquerda restava fazer suas apostas e apoiar as iniciativas sociais e os sindicatos livres, os últimos bastiões que lutavam pelo direito de organização. De repente (como se fosse no mundo paralelo) surgiram alguns projetos que rapidamente ganharam a popularidade graças a um apelo claro ao sociedade e também a cada cidadão em particular, ao seu sentimento de auto estima.

A luta em defesa do bosque do Khimki (nos arredores de Moscou) reuniu todos aqueles que já estavam cansados de destruição da ecologia e de seu habitat. Sem pensar muito nas causas deste processo, as pessoas simplesmente foram defender seu direito de respirar o ar puro e não gás carbônico. O projeto RosPil (que luta contra a corrupção e o enriquecimento ilícito dos burocratas estatais) surpreendeu inicialmente por sua coragem e logo em seguida por envolver a todos com a ideia de fazer uma oposição aberta à corrupção. Grajdaninpoet (cidadão poeta, assim mesmo, uma só palavra com letras minúsculas) fez ressurgir a capacidade o povo em ridicularizar os tiranos. Os Baldes azuis e o grupo Guerra demonstraram que é possível e necessário lutar pelo seu espaço tanto na estrada, como na arte.

Podemos compartilhar ou não os motivos políticos (ou sua falta) que levaram seus autores e organizadores a realizar tais projetos. Porém, temos que aceitar que cada um deles foi apresentado de uma forma simples e clara à população. Por isso, tiveram retorno, despertando em uma grande quantidade de pessoas, se não o apoio explícito, ao menos a simpatia a seus objetivos. Foi por isso que foram eles, os movimentos, e não os líderes dos partidos desacreditados, que estavam no palanque dos comícios em dezembro de 2011 e em fevereiro de 2012.

Menos conhecidos do grande público, mas extremamente importantes são os movimentos 19 de Janeiro, que desafiou a mais nojenta de todas as crias do Estado, a escória fascista, e o MPRA – Sindicato Interregional dos Trabalhadores na Indústria Automobilística, que deu exemplo de auto-organização e se opôs, nas fábricas de empresas transnacionais, aos empresários apoiados pelos serviços secretos.

Foram estas as iniciativas civis e similares, e não os partidos políticos, que prepararam o agitação social. O clima de protesto foi bem estimulado por eles, mas esquentou mesmo e saiu das redes sociais na internet para as ruas depois do dia 4 de dezembro. Por trás da palavra de ordem “Eleições honestas” está não apenas a mágoa pela fraude na contagem de votos. Estão os desejos de qualquer pessoa normal: viver num país onde o ser humano possa se sentir seguro, protegido contra a violência das ruas, da extorsão e do abuso policial e burocrático, da onipotência dos serviços secretos, onde ela e seus filhos sejam respeitados e tratados como seres humanos, terem acesso à saúde de qualidade, à educação gratuita e respeito ao seu trabalho. Foram estes valores, tradicionais para a social-democracia, que fez a sociedade civil se conscientizar sobre a reivindicações pela quais se deve lutar. Foi isso que, em primeiro lugar, empurrou centenas de milhares de pessoas às ruas.

As pesquisas de opinião pública e a análise dos dados pessoais dos participantes das ações de protesto nas redes sociais demonstram que aproximadamente 10% deles definem suas posições políticas como sendo de esquerda não-totalitária . Isso significa que os socialistas democráticos (finalmente) acharam sua base social! Porém, é cedo para comemorar o fato. Temos pela frente a luta contra os nacionais-populistas e os stalinistas-populistas, a luta pelas almas e pelas mentes da parte ativa da sociedade. Nesta luta estamos em condições pouco favoráveis, sem um programa político claro e nem organização para tanto.

Portanto, a tarefa número um da Esquerda Democrática é iniciar a elaboração de um programa que possa atender às mais amplas expectativas sociais, juntando todas as iniciativas da sociedade civil interessadas nesse trabalho, dando aos Sindicatos Democráticos e Livres o papel principal no processo de formação de um amplo movimento dos trabalhadores. Esta deve ser prioridade fundamental dos Esquedistas Democráticos.

Isto representará o passo inicial de construção coletiva de uma nova conjuntura política dentro da qual a classe operária e todos os trabalhadores terão a oportunidade de ter voz e serem ouvidos.

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