Araucárias, peixes e chimarrão

Por Selvino Heck*

O local é o Assentamento Contestado, município de Lapa, Região Metropolitana de Curitiba, Paraná. São 108 famílias, assentadas em 7 de fevereiro 1999, portanto há 13 anos. No assentamento, funciona a Primeira Escola Latino-americana de Agroecologia, que começou em 2005 e agora em 2012 vai iniciar o terceiro curso superior de três anos e meio.

O assentamento surgiu depois de uma ocupação no governo Fernando Henrique, conforme contou o Luís, assentado. E logo começaram a lutar por luz elétrica, por construção de casas, poço artesiano, “uma coisa atrás da outra: casa, água, projetos”. E uma parte das famílias começa a produção agroecológica. “São alimentos mais saudáveis, plantados para vender e para consumo próprio”.

Dona Maria, assentada, disse que esta é uma terra de conquista, campo e cidade se unindo: “Povo de Deus em marcha, povo de Deus em luta”. Fazem trabalho comunitário de ervas medicinais e métodos naturais no assentamento.

Edson, coordenador da escola explica que o Projeto Político Pedagógico da Escola Latino-Americana de Agroecologia é baseada em Paulo Freire, na pedagogia da alternância e em outras pedagogias. E hoje já está sendo criada uma Rede de Escolas Agroecológicas: na Venezuela, Paraguai, Amazônia e uma no Equador em debate.

Foi quase um retiro no meio do mato. Celular só pegava numa elevação e curva da estrada, olhando para as araucárias e o verde ao redor, ‘depois da caixa dágua’, explicou o Edson, ‘e pega qualquer celular chinfrin’. Quartos coletivos, beliches, de vez em quando um banho frio, como convém numa escola de um assentamento do MST, um roncando ao lado do outro, comida caseira gostosa, produzida pelos próprios assentados.

É o 8º Encontro Macro Sul da Rede de Educação Cidadão (Recid), 60 educadoras e educadoras do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul: as araucárias, os peixes e o chimarrão. O objetivo é preparar as ações da Recid Sul – Articulação de educadores e educadoras de movimentos sociais e populares, pastorais, ONGs, surgida em tempos de Fome Zero, 2003, Frei Betto assessor especial do presidente Lula – e discutir o plano de formação da rede em nível nacional, em preparação ao 11º encontro nacional a realizar-se em março, em Luziânia (GO), na Chácara do Cimi.

O primeiro passo é atualizar a conjuntura mais recente dos três estados. O Rio Grande do Sul está com governo novo “com abertura maior para o diálogo e com um olhar diferenciado sobre as políticas públicas que venham de encontro às necessidades da população gaúcha”. O governo Tarso Genro segue a linha do governo federal. “Nesse sentido vivenciamos uma maior abertura para o diálogo, criação de grupos de trabalho nos mais variados temas, relação amistosa com os movimentos sociais, diminuindo a criminalização e com absorção de suas demandas”.

Paraná e Santa Catarina continuam com governos conservadores, mesmo com a mudança partidária do governador de Santa Catarina, que se aproximou do governo federal. No Paraná, o agronegócio é politicamente engajado e há fragilidades e fragmentação dos movimentos sociais, com muitos grupos pequenos, com dificuldade para falarem entre si. Mas ambos os estados têm experiências interessantes na área da agroecologia, da luta por moradia, com a juventude.

Cada Estado apresentou suas experiências. O Rio Grande do Sul faz as jornadas pedagógicas, “pensadas a partir de uma proposta de contribuição das lutas com os movimentos sociais, com temas como Mulheres e Relações Gênero, Trabalho e Economia Solidária, Juventude, Direito à Cidade e os Impactos da Copa do Mundo, a Consciência Negra e o papel do Negro, Justiça Social e ambiental na cidade”.

A Recid-PR divide as atividades a partir de quatro eixos centrais: educação popular, articulação campo-cidade, juventude e economia solidária, sendo a educação popular um eixo transversal. Fazem um encontro mensal na última quinta e sexta de cada mês para estudar a educação em Paulo Freire.

A Recid-SC está dividida em núcleos, com temas como direitos humanos – egressos, apenados, familiares contra a tortura; e educação – educação popular como política pública –; Educação de Jovens e Adultos; Teatro do Oprimido; segurança alimentar e nutricional; democracia participativa.

Conhecida a realidade, foram elencados desafios: articular as lutas dos movimentos com lutas pela democratização dos estados; contribuir para a organização de base; fortalecer a formação de subjetividades e valores; disputar as prioridades dos governos sob a perspectiva de um projeto popular; fortalecer as práticas de economia solidária e de construção de um modelo de produção agroecológico; aprofundar o estudo do descenso das lutas populares frente ao crescimento de uma nova classe trabalhadora; dar continuidade aos trabalhos de base; sistematizar experiências e ações; qualificar as políticas e programas sociais a partir de uma perspectiva emancipatória que garanta atividades de formação.

A mística final envolveu a lembrança da Guerra do Contestado, acontecida na região há um século: “Rememoramos o misticismo e os ideais de sociedade de ‘uma brava gente brasileira’, que carregou na alma símbolos de representação: nas mãos, escassas armas; e no coração a fé e o estigma de morrer por uma pátria que a renegou. Essa brava gente praticava a agricultura de subsistência, formava grupamentos e vivia como posseiros e sitiantes, resultantes de uma mistura de grupos humanos com diferentes origens, descendentes de tropeiros, refugiados farroupilhas, indígenas, em especial kaingangues. E resistiram ao poder de então. Esse Assentamento do Contestado “representa a memória viva de todos os caboclos e caboclas que tombaram. Memória viva e presente do monge José Maria, da Chica Pelega”. Ao final, educadores e educadoras das araucárias e do pinhão do Paraná, dos peixes de Santa Catarina e do chimarrão do Rio Grande do Sul cantaram: “Povo que ousa sonhar, constrói o poder popular”.

 * Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República

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